Love, Death, Robots & Batatas Fritas

Para quem era adolescente durante os anos 2000 e interessado no mundo do cinema, a coletânea de animações Animatrix (2003) foi um grande marco. Lembro do impacto que senti quando os nove curtas-metragens descortinaram as questões existencialistas do universo Matrix diante de mim. O que percebo realmente é a realidade? Que forças e regras dominam o mundo e que não consigo ver? É possível quebrar esse véu? O meu eu adolescente ficou embasbacado com os questionamentos explorados mais a fundo nos curtas da antologia que os irmãos Wachoswkis produziram.[i]

Apesar do sucesso do Animatrix, entretanto, esse formato de uma coletânea de animações desapareceu do mainstream.[ii] As minhas esperanças que houvessem mais filmes assim foi gradualmente desaparecendo quando os criadores de curtas de animação encontraram nas plataformas digitais o local perfeito para alcançar um público sem ter que depender da indústria do cinema. Foram 16 anos de espera até que saísse novamente uma coletânea de animações com nomes de peso por detrás, dessa vez financiado e distribuído pela Netflix, o Love, Death & Robots (2019).

Uma mudança drástica se torna visível quando comparamos Animatrix com Love, Death & Robots

O lançamento dessa antologia contemporânea criado pelo Tim Miller e o David Fincher deixou, entretanto, um gosto amargo na boca. Por mais bonito que seja cada filme, minha primeira impressão foi o do vazio no rastro de cada história que terminava. Não foi só uma impressão pessoal, Ben Travers da revista online IndieWire faz um comentário similar:

“Enquanto há muito para se admirar visualmente — cada episódio seduzindo com sua variedade estilística — as histórias em si são tratadas com um adendo, o que acaba colorindo tudo com um tom horroroso de cinza.”

Essa mesma crítica se repete em vários outros meios. No The Guardian a crítica é que “Enquanto cada curta é bem executado, quando assistido em sucessão se perde qualquer impacto.” A Wired classifica como um sci-fi sexista entediante. Já a Rolling Stones vai ao limite dizendo que nos piores momentos “o show parece estar apelando para o menor dominador comum do público alvo da Comic-Con e elevando o volume ao máximo.”

Poster de divulgação da série

Resolvi escrever esse texto porque, apesar do meu descontentamento pessoal, há um fenômeno interessante que o lançamento da antologia traz para o primeiro plano. Ao invés de me juntar ao coro dos críticos ou engrossar o louvor que a série tem recebido(como uma grande parte dos espectadores estão fazendo pela nota absurdamente alta no IMDB)[iii] prefiro focar justamente nessa disparidade. Por que para um público mais antigo é impossível ignorar a superficialidade dos temas tratados enquanto para outros a sedução visual basta? É difícil compreender que o mesmo público que assiste a crítica feroz da nossa sociedade em Black Mirror (2011) aceite tão prontamente a alienação e dessensibilização total oferecida no Love, Death & Robots.

Acredito também que meu desapontamento na expectativa de ter um novo Animatrix é indício de uma grande virada— o fim do pós-modernismo justamente no final do milênio da qual o Matrix é um dos últimos grandes filmes a beber de sua fonte.[iv] Estamos agora vivendo épocas incertas, aonde nossa forma de pensar está sendo reconfigurada pelas tecnologias. Pode ainda soar pedante, mas já existe uma certa nostalgia dos questionamentos infindáveis da realidade que marca o pós-modernismo. Nos esforçamos tanto para compreender as intrincancias filosóficas que surgiram durante os anos 80 e 90 que é difícil adentrar uma nova época aonde é preciso descobrir outras formas de compreensão.

O fracasso da pós-modernidade

Ao meu ver, a chave que justifica a existência do Love, Death & Robots e também sua popularidade se encontra no episódio Zima Blue dirigido por Robert Valley. O curta conta brevemente a história de um artista que rapidamente ascendeu a fama universal devido a sua ousadia. Apesar de ser possível traçar paralelos com artistas como o JR ou Cai Guo-Qiang (ambos carregando traços megolomaníacos em repensar a paisagem) a história do Zima Blue vai descortinando para mostrar uma arte totalmente desconectada de quaisquer questões políticas e sociais. Como para arrematar da mente do espectador qualquer dúvida de que pode haver um simbolismo por detrás das suas pinturas monocromáticas azuis, o artista conta sua evolução mecânica-artística (a media que como robô ele evolui também evolui sua arte) para finalmente chegar no cerne do que todos os anos da sua vida lhe ensinaram:

“O que é arte? É extrair prazer da boa execução de uma tarefa.”

É impossível não extrapolar esse simples momento para a antologia como um todo. Sem qualquer profundidade, o Love, Death & Robots é o exemplo perfeito da arte simplesmente como uma tarefa bem executada. Não existem camadas a serem descascadas, o que você vê é o que ele tem para oferecer. É uma casta de dráculas com medos de gatos que tem como único objetivo comer o que está pela frente, são fazendas protegidos por uma cúpula em um planeta tomado por monstros, é o exército russo batalhando ghouls na Sibéria. Por quê? Para quê? Não importa… O que importa é o que você esteja vendo. Zima Blue está presente em cada um dos filmes me assegurando que o único que tenho que fazer é “assisti e ter prazer na execução desses filmes.”

O caminho mais simples dessa discussão levaria a um debate infindável sobre a arte pela arte. Porém, defendo que o mais produtivo seria levar em conta como a tecnologia nos ajudou a chegar a esse ponto. Love, Death & Robots não é um fruto da arte pela arte, mas do empobrecimento das sintaxes de linguagem (em todos os sentidos). Para me aprofundar no porquê essa série representa uma quebra tão grande em relação ao Animatrix utilizo o conceito de Digimodernismo, teorizado e explicado por Alan Kirby no seu livro Digimodernism: How New Technologies Dismantle the Postmodern and Reconfigure Our Culture (2009).

Ao contrário da visão mais popular que redes sociais e novas tecnologias estão colaborando para uma sociedade mais democrática, Kirby profeticamente propõe que elas colaboram para um emburrecimento e enaltecem o denominador mínimo comum (a mediocridade). Mais importante ainda é que isso ocorro de uma forma que não é irônica (como na pós-modernidade) mas como um ataque aos valores elitistas da pós-modernidade. Digo que ele profeticamente chegou a essas conclusões pois agora, quase uma década depois de lançado seu livro o balanço político para uma ultradireita que ataca qualquer intelectualidade prova as ameaças da tecnologia para uma sociedade democrática.

Digimodernismo

O texto do Kirby é complexo e engloba diversos aspectos sociais, mas no cerne está a questão de como com a popularização da internet e de tecnologias condicionaram uma cultura que privilegia a ação ao invés da reflexão– clique aqui!; compartilhe isso; responda esse questionário; comente; retweet.

O impacto dessa nova prioridade nos texto-objetos culturais (filmes, livros, fotos, música) é imenso! Criar vira mais importante que o objeto em si. O resultado é uma enchente de texto-objetos que afoga tudo que vê pela frente. Kirby visualiza em meio a esse panorama a saída que os textos que querem sobreviver esse tsunami “depende continuamente da valorização da competência, habilidade e know-how pois esses são, ipso facto, fatores excludentes: servindo para delimitar, isolar e fechar.”[v]

Qual a ligação dessa saída com o Love, Death & Robots? Em um tempo aonde a ação de criar é mais valorizada que o da reflexão e que simultaneamente a cada dia milhões de novos texto-objetos são criados, a arte se diferencia e sobrevive pela qualidade da sua execução. Ao meu ver, é um grande parte por essa razão que o deslumbramento pela técnica assume o papel principal de uma geração que não está mais acostumado a refletir.

Novamente Kirby reforça essa ideia quando afirma que o digimodernismo “é o estado de estar mergulhado no presente, estar tão envolto no instante que não existe espaço para nada além; tudo que existe é o que está na sua frente.”[vi] Não seria isso que Zima Blue quando diz que a arte “É extrair prazer da boa execução de uma tarefa”?

Por mais bonito que seja o azul cintilante tom Zima Blue que envolve o Love, Death & Robots, a pobreza de significado continua a assolar a série. Talvez a melhor comparação venha novamente de Kirby quando ele comenta na pobreza que essa nova forma de pensar modifica o ato de escrever:

… se a fala tende a ser mais pobre, menos sútil e sofisticado que a escrita, então as mensagens de texto estão muito mais abaixo na escala de complexidade linguística. É virtualmente uma bagunça iliterata de carácteres grudados, cheio de palavras que martelam com suas bruscas interrogações e que favorece a maneira mais simples e direta de expressar necessidades e humores que surgem de repente. É incapaz de descrever algo mais duradouro e com nuances.

As mensagens de texto são para o discurso o que as batatas fritas são para a nutrição….”[vii]Love, Death & Robots é para o cinema o que as batatas fritas são para a nutrição.


[i] Para gerações anteriores esse mesmo momento “WTF é isso que tô vendo?” aconteceu com o Heavy Metal de 1981.

[ii] Houve algumas coletâneas como o Fears of the Dark (2007) e Short Peace (2013) que apesar de ótimos nunca quebraram o nicho aonde eles se encontram. Parece portanto, que a idade de ouro das antologias de animações foram nos anos 80 com Heavy Metal (1981), Neo Tokyo (1987), Robot Carnival (1987), Outrageous Animation (1988) e Spike & Mike’s Sick & Twisted Festival of Animation (1990).

[iii] No momento dessa escrita ele está com um 8.8. Nota maior que todos os filmes de animação no IMDB.

[iv] Tenho um outro texto falando especificamente do Black Mirror para quem tiver interesse em se aprofundar mais.

[v] Kirby, A. Digimodernism: How New Technologies Dismantle the Postmodern and Reconfigure our Culture. In.: Supplanting the Postmodern. (2009), pp. 302

[vi] Ibid.

[vii] Kirby, A. Digimodernism: How New Technologies Dismantle the Postmodern and Reconfigure our Culture. In.: Supplanting the Postmodern. (2009), pp. 291-292

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