Django Livre e o racismo que aprisiona

Introdução

O Brasil foi o último país do mundo ocidental a deixar a escravização, e, portanto, ainda colhe os frutos desse triste capítulo da nossa história. Porém, o racismo infelizmente não é algo exclusivo do brasileiro, e ainda hoje é um assunto que mais do que nunca precisa ser discutido. Mais do que isso, práticas que possam colaborar com o processo de mpoderamento do negro se fazem necessárias, seja através da educação ou de produções audiovisuais, que possam contribuir para a tomada de consciência não só do negro, como de todos as outras raças.


O objetivo desta pesquisa é investigar se a trajetória do personagem Django, do filme Django Livre, do diretor Quentin Tarantino, contribui para o empoderamento no negro fora da ficção. Visto que a trajetória do protagonista, aparentemente como sugere o título do filme, é uma trajetória de libertação, que contribuiria para o processo de empoderamento do negro, notados os efeitos que o cinema tem sobre a cultura. A pesquisa tem como base teórica a obra de Gramsci, através dos estudos de Williams, a respeito dos tipos de culturas e suas relações de poder. Foram escolhidas quatro cenas chave da obra, para que fosse feita uma análise do discurso de linha francesa, baseada nas teorias do filósofo Michel Foucault. Feita a análise do discurso de Django e extraídos os enunciados do mesmo, foi feito um paralelo que relaciona a trajetória do protagonista com os conceitos de empoderamento teorizados por Paulo Freire, para que o problema de pesquisa possa ser respondido. Esta pesquisa se justifica pelo fato de o empoderamento do negro ser um processo ainda vigente em nossa sociedade, e extremamente importante para a libertação e alcance de consciência principalmente do oprimido, mas também do opressor. Além de ser necessária pois toda produção audiovisual popular tem potencial tanto para o bem quanto para o mal sobre a sociedade, sendo parte essencial e pertencente a cultura.

Sinopse

O filme Django Livre retrata o sul dos Estados Unidos anos antes da guerra civil de 1861, e conta a história de Django, um escravo subversivo que é comprado pelo caçador de recompensas alemão, Dr. King Schultz, e recebe sua carta de alforria. Django se torna aprendiz de Schultz, o ajudando a caçar criminosos foragidos, e em troca da lealdade de Django, o alemão decide o ajudar a reencontrar e libertar sua esposa, Broomhilda, que está nas mãos do terrível fazendeiro Calvin Candie, e se vingar de anos de tortura.

Primeiras impressões

As relações de poder na história do filme ficam claras na primeira cena, Django começa como um escravo acorrentado, marcado pelo chicote, quase nu, indefeso, vítima do sistema, dominado pela cultura dominante, termo este muito utilizado nas teorias marxistas a respeito da luta entre classes. Gramsci um estudioso do tema, traz uma reflexão a respeito do que é a cultura dominante, ou hegemonia. Segundo Williams, Gramsci traz um conceito de hegemonia extremamente complexo e profundo, ele diz que em todas sociedades e períodos históricos existe um sistema de práticas, significados e valores dominantes, hegemônico. No mundo de Django a hegemonia é representada pela escravatura, e a dominação do homem branco sobre o homem negro, um sistema extremamente opressor. Porém este sistema não deve ser entendido como um conjunto abstrato de imposições, como se toda nossa experiência social fosse resultado de mera manipulação. Antes a hegemonia é um conjunto de práticas, significados e valores que constituem a compreensão do que é natural ao homem e da realidade de seu mundo.

“Pois se a ideologia for apenas um conjunto abstrato e imposto de noções, se as nossas ideias, pressupostos e hábitos sociais, políticos e culturais forem meramente o resultado de uma manipulação específica, de um tipo de formação aberta que pode ser simplesmente encerrado ou removido, então seria muito mais fácil mover ou alterar a sociedade do que na prática o foi ou é.” – (WILLIAMS, p.52)

No filme o maior representante da hegemonia é sem dúvida o personagem Calvin Candie (interpretado por Leonardo Di Caprio), um grande fazendeiro, responsável pela fazenda Candyland, uma fazenda famosa tanto pelo seu tamanho como pela violência a que os escravos nela são acometidos. Além de fazendeiro Monsieur Candie – como gosta de ser chamado o personagem – é um negociante no ramo das lutas de mandingos, que são lutas sangrentas entre escravos que só terminam com um dos oponentes mortos, utilizadas como passatempo entre os mercadores de escravos.

Além da cultura dominante notamos a existência em Django Livre da cultura residual, apesar desta ser bem menos clara na película. Segundo Williams, cultura residual entende-se como experiências, significados e valores que não fazem parte da cultura dominante e, portanto, são expressados como resíduos de culturas anteriores. Traços residuais são notados no personagem coadjuvante do filme, o Dr. King Schultz, um caçador de recompensa responsável pela “libertação” de Django. Por ser caracterizado como cultura residual, as práticas de Schultz são consideradas perigosas pela cultura dominante, como notamos em várias cenas onde fazendeiros representantes da hegemonia se sentem desconfortáveis com os discursos e ações do alemão.

“Uma cultura residual está geralmente a certa distância da cultura dominante efetiva, mas é preciso reconhecer que, em atividades culturais reais, a cultura residual pode ser incorporada à dominante. Isto porque alguma parte dela, alguma versão dela – sobretudo se o resíduo é proveniente de alguma área imponente do passado- terá de ser, em muitos casos, incorporada se a cultura dominante quiser fazer sentido nessas áreas. Também porque, em certos aspectos, uma cultura dominante não pode permitir que muitas dessas práticas e experiências fiquem fora de seu domínio sem correr certo risco. Assim, as pressões são reais, mas certos significados e práticas genuinamente residuais, em alguns casos importantes, sobrevivem. ” – (WILIAMS, p.56)

Dr. Schultz se diz contrário ao sistema escravocrata parecendo assim representar a uma cultura emergente, porém ele se aproveita do sistema hegemônico para benefício próprio, como quando na cena no bar de Dauhgtrey o alemão assume que Django não terá escolha a não ser ajudá-lo, pois este foi comprado pelo doutor. Com essa cena podemos tender a identificar erroneamente Dr. King como representante da hegemonia, porém este também não se enquadra neste local. Portanto, caracterizamos ele como pertencente a cultura residual, principalmente ao considerarmos que este vem de outra cultura, a cultura alemã, e ainda carrega os valores e práticas dessa cultura anterior, como os mitos e histórias da cultura popular alemã que Dr. King, conta a Django, ou ainda o repúdio a escravatura, mostrando que o personagem não se enquadra na cultura hegemônica norteamericana. Entretanto em uma primeira e superficial análise acreditamos que o foco do filme está na cultura emergente representada por Django. “Por “emergente” quero dizer, primeiramente, que novos significados e valores, novas práticas, novos sentidos e experiências estão sendo continuamente criados. ” – (WILIAMS, Página 57).

Django era escravo, se tornou livre, e agora mata brancos em troca de dinheiro enquanto busca lutar pela liberdade de sua amada esposa Broomhilda. Com esta primeira análise tendemos a caracterizar claramente Django como alguém que emerge, que se emancipa, que luta contra o sistema. Porém ao fazermos uma análise mais profunda, das reais ideologias e mensagens que o personagem carrega, notamos que Django, é alguém extremamente individualista, alguém que não é livre, e que corrobora o sistema hegemônico da escravatura. Análise do discurso Escolhemos fundamentar nossa análise do discurso, nas teorias de Michel Foucault. O filósofo propõe em suas obras, “Ditos e escritos vol. II: Arqueologia das ciências e história dos sistemas de pensamento” e “A arqueologia do saber”, a teoria arqueológica para analisar as entrelinhas dos discursos, e extrair a verdadeira mensagem, o verdadeiro enunciado dos mesmos.

“Certamente os discursos são feitos de signos; mas o que fazem é mais que utilizar esses signos para designar coisas. É esse mais que os torna irredutíveis à língua e ao ato da fala. É esse “mais” que é preciso fazer aparecer e que é preciso descrever. ” (FOUCAULT, 2008, p.55)

Para Foucault (2008, p.55) não devemos tratar os discursos como um conjunto de signos, e sim “como práticas que formam sistematicamente os objetos de que falam. ” Essas práticas segundo Gaspar (2007, p.61) “advêm de acontecimentos históricos, que são representados tanto sob o ponto de vista científico (formações discursivas) como das experiências pré-científicas (formações não discursivas). ” Gaspar (2007, p.61) diz que segundo o filósofo francês para conseguir identificar como um objeto do discurso é formado nas formações tanto discursivas como nas não discursivas, é necessário observar e descrever como o objeto foi apresentado superficialmente em diversos textos, obras e momentos históricos distintos afim de relacioná-los.

“A análise dos conteúdos léxicos define tanto os elementos de significação de que dispõem os sujeitos falantes, em uma dada época, como a estrutura semântica que aparece na superfície dos discursos já pronunciados; ela não se refere à prática discursiva como lugar onde se forma ou se deforma, onde aparece e se apaga uma pluralidade emaranhada – ao mesmo tempo superposta e lacunar – de objetos. ” (FOUCAULT, 2008, p.54)

Segundo Gaspar (2007, p.61), dentre a análise do objeto em meio a essa chamada “pluralidade emaranhada” de Foucault, surge um conjunto de textos que formam um arquivo.

“Entre a língua que define o sistema de construção das frases possíveis e o corpus que recolhe passivamente as palavras pronunciadas, o arquivo define um nível particular: o de uma prática que faz surgir uma multiplicidade de enunciados como tantos acontecimentos regulares, como tantas coisas oferecidas ao tratamento e à manipulação. ” (FOUCAULT, 2008, p.147)

E é em busca de um arquivo que fazemos uma análise ainda que breve do filme em questão, Django Livre, para identificar no discurso do personagem Django, o que realmente foi dito em relação ao objeto: empoderamento do negro, entendendo assim se há uma contribuição da obra com a formação de uma consciência empoderadora no espectador. Foucault (2008, p.147) diz que “o arquivo é, de início, a lei do que pode ser dito, o sistema que rege o aparecimento dos enunciados como acontecimentos singulares. ” Gaspar (2007, p.61) diz que:

“As observações dos discursos realizadas por Foucault levaram-no a perceber que eles se deslocam de texto para texto, mas, ao se deslocarem, eles conservam “algo que permanece”. Este “algo que permanece” é definido por ele como “o enunciado discursivo”

Em busca desse “algo que permanece” ao analisarmos o filme notamos no discurso de Django a existência de três principais enunciados que denominamos como: Django individualista; Django opressor e Django que não é livre. Os três enunciados formam um arquivo que deixa claro a mensagem por traz do filme, através da análise e relação de cenas e falas distintas ao longo da cronologia da obra.

Django individualista

Django impede Dr. King de salvar o escravo

Destacamos a sequência que se inicia em 1:12:29 do filme, quando Django e o Dr. King Schultz estão a caminho da fazenda Candyland juntamente com Calvin Candie, seus empregados e escravos recém comprados que farão parte da grande fazenda do comerciante. Em dado momento, quando a comitiva já está próxima ao seu destino, por volta de 1:18:44 do filme uma cabana surge no caminho, onde alguns capatazes de Monsier Candie estão, os olhares sobre Django como de costume são de surpresa e estranhamento, por se tratar de um negro montado em um cavalo. Em cima de uma árvore um pouco à frente na estrada da cabana, está um escravo acuado por três ferozes cães que são segurados por dois capatazes. O escravo, da fazenda Candyland, é um dos mandingos lutadores de Calvin, que fugiu dias antes.

Calvin Candie pergunta ao escravo o motivo de sua fuga, e este revela que não pode mais lutar, o fazendeiro obviamente não se importando com o bem-estar do escravo diz que ele pode sim lutar, e que ele o fará afinal como diz Candie, ele pagou 500 dólares pelo escravo e espera pelo menos que o lutador vença cinco lutas para que haja um retorno do investimento. Apesar do escravo, chamado D’Artagnan, implorar, o rico fazendeiro continua seu discurso perguntando a todos quem reembolsará os 500 dólares investidos a ele. Nesse momento Dr. King Schultz se oferece para reembolsar Calvin, já colocando a mão no talão de cheques. Porém Django friamente o impede de fazer o ato de caridade e evitar a morte do escravo fujão. Calvin Candie então ordena que os capatazes soltem os cães que devoram o escravo vivo. Com esta cena podemos acreditar que toda a frieza de Django frente ao acontecimento sejam em decorrência do papel que ele assume para provocar Calvin Candie, porém é notório que além disso, o protagonista realmente se mostra frio e individualista, como na cena descrita anteriormente. Django mostrasse apenas preocupado com sua liberdade, com sua trajetória, e seus objetivos de resgatar sua esposa e se vingar, colocando a luta contra a escravidão e a ajuda aos seus semelhantes negros como algo sem importância, secundário em sua vida.

Django opressor

A caminho de Candyland

Na mesma sequência da análise anterior, que se inicia por volta das 1:12:19 do filme, temos nossa atenção sobre uma fala de Django. Django e seu parceiro alemão alcançam a comitiva a galope, e sua chegada causa um desconforto nos capatazes de Candie e escravos que caminhavam. Durante o percurso em certo momento a comitiva para, e o Dr. King se junta a Calvin Candie e seu advogado em sua carruagem. O fazendeiro e Django trocam algumas palavras sempre provocando um ao outro. Aparentemente o protagonista quer se mostrar principalmente a Candie. Tanto que quando um dos capatazes faz uma piada com Django, ele sem hesitar o arremessa do cavalo sem temer as consequências, que graças a Calvin não são nenhuma. Todos continuam a viagem, agora com o doutor na carruagem e Django continuando em seu cavalo. Um escravo andando ao lado de Django olha para o protagonista com um olhar ameaçador e de desprezo, e cospe no chão em sina de desrespeito. Django então pergunta se há algo de errado, o escravo diz que não, o protagonista o ameaça então caso ele o olho assim novamente. Django não satisfeito utiliza a situação para dar um recado geral aos escravos que caminham, ele diz: “Vocês, crioulos, vão saber algo sobre mim. Sou pior que todos esses brancos. Agora, deixem de moleza e parem de olhar pra mim. ”

Novamente podemos entender que a fala de Django é mais superficial, e um papel para criar uma certa impressão em Calvin Candie, ao invés de realmente considerá-la. Mas tal hipótese se mostra errônea a notarmos mais adiante na sequência que quando o Dr. King, chama a atenção de Django para que ele tome cuidado não provocando Candie, para que eles não sejam mortos. Porém o protagonista diz que não está o provocando e sim o intrigando, e quando o alemão diz que Django está maltratando os escravos, ele responde: “Eu me lembro do homem que me fez matar outro homem na frente do filho sem nem pestanejar.” Nesta cena podemos notar traços opressores em Django, que não se importa com outros escravos, mostrando valores e assumindo práticas do sistema escravocrata, contribuindo com a cultura dominante, em detrimento de seu próprio povo.

Django que não é livre

Saloon em Daughtrey

Na primeira sequência do filme Django é liberto, e um enquadramento em primeiríssimo plano mostra esse momento, quando graças ao Dr. King Schultz, o escravo tem os grilhões que o machucavam e prendiam abertos, e agora ele caminha para uma vida de liberdade. Algumas cenas a frente, em 00:14:39 do filme, Django e Dr. King estão na cidade de Daughtrey, eles chegam no saloon da cidade e pedem duas cervejas, porém o responsável pelo estabelecimento diz que ainda estão fechados, e após pedir a saída de Django por ser negro do local ele sai às pressas para chamar o xerife para resolver o problema. Enquanto aguardam a chegada do xerife o alemão serve duas cervejas, para ele e Django. Eles conversam enquanto esperam, o doutor explica para o protagonista qual o seu trabalho como caçador de recompensas. Schultz diz estar passando por um dilema, pois apesar de odiar a escravatura, ele usará ela a seu favor, obrigando Django a ajudá-lo a encontrar três criminosos foragidos, já que por ter sido comprado pelo alemão, o protagonista não tem escolha a não ser obedecer. Ou seja, Django, não é livre. Com essa cena vemos como Django não tem escolha, a não ser obedecer ao Dr. King Schultz, e segui-lo, afinal o que ele faria sem o alemão? Voltaria a escravidão? Ele provavelmente não tem outra escolha, ele precisa se submeter aos desejos e instruções de seu “libertador”, ele não é livre. Django não é livre nem para ter uma personalidade própria e esta é apenas uma das cenas que deixam isso claro.

Empoderamento

Ao analisarmos o discurso por trás destas cenas notamos um enunciado, e formamos um arquivo que mostra, Django como alguém extremamente individualista, que assume um papel de opressor e que não é realmente livre para tomar suas próprias decisões. Como então podemos enxergar as reflexões proposta sobre o objeto em questão, o empoderamento do negro, no filme Django Livre? Para encontramos esta resposta precisamos antes compreender o conceito de empoderamento, para fazermos um paralelo ante a obra analisada. Como principal fonte da presente pesquisa a respeito do empoderamento, escolhemos o principal teórico a respeito do tema, Paulo Freire. Baquero (2012, p.181) a respeito do pensamento de Freire sobre o empoderamento diz:

“O empoderamento, como processo e resultado, pode ser concebido como emergindo de um processo de ação social no qual os indivíduos tomam posse de suas próprias vidas pela interação com outros indivíduos, gerando pensamento crítico em relação à realidade, favorecendo a construção da capacidade pessoal e social e possibilitando a transformação de relações sociais de poder. ”

Segundo Baquero (2012, p.181) para Freire o processo de empoderamento ou empowerment configura-se “muito mais do que invento individual ou psicológico, configurando-se como um processo de ação coletiva que se dá na interação entre indivíduos, o qual envolve, necessariamente, um desequilíbrio nas relações de poder na sociedade. ” Ou seja, Freire não acredita na auto-emancipação individual.

“Mesmo quando você se sente, individual-mente, mais livre, se esse sentimento não é um sentimento social, se você não é capaz de usar sua liberdade recente para ajudar os outros a se libertarem através da transformação global da sociedade, então você só está exercitando uma atitude individualista no sentido do empowerment ou da liberdade. ” (FREIRE; SHOR, 1986, p.71)

Apenas com esta reflexão já é possível notar um problema quanto ao empoderamento em Django Livre, afinal no filme o único escravo que aparentemente se empoderou foi Django, ou seja, não há uma ação coletiva, uma interação entre os escravos. Mas como nossa análise do discurso de Django já nos mostrou, o protagonista também aparentemente não é alguém emancipado, e podemos corroborar esta reflexão ao entendermos o conceito de conscientização, etapa necessária para o alcance do empoderamento segundo Freire.

“O empoderamento envolve um processo de conscientização, a passagem de um pensamento ingênuo para uma consciência crítica. Mas isso não se dá no vazio, numa posição idealista, segundo a qual a consciência muda dentro de si mesma, através de um jogo de palavras num seminário. A conscientização é um processo de conhecimento que se dá na relação dialética homem-mundo, num ato de ação-reflexão, isto é, se dá na práxis. ” (FREIRE, 1979)

Conscientizar não significa conduzir o outro a forma como eu penso, como faz o Dr. King Schultz com Django, conscientizar-se é antes adquirir um olhar extremamente crítico para compreender a realidade de forma objetiva. Django ao longo do filme não toma nem consciência de quem é, nem do que o mundo a sua volta é. Porém percebemos que Django é diferente, então qual seria a condição dele em meio ao sistema que está inserido? Ao analisarmos suas práticas opressoras e individualista podemos perceber segundo Freire alguém em uma fase inicial da luta pela emancipação

“Durante a fase inicial do combate, em lugar de lutar pela liberdade, os oprimidos tendem a converter-se eles mesmos em opressores ou em “subopressores”. […]Tal fenômeno provém de que os oprimidos, num dado momento de sua experiência existencial, adotam uma atitude de “adesão” em relação ao opressor. Nestas condições lhes é impossível “vê- lo” com suficiente lucidez para objetivá-la, para descobri-lo “fora de si mesmos”. ” (FREIRE, 1979, p. 31)

Freire (1979, p.31) faz uma reflexão que torna claro também o individualismo notado em Django, ele diz que:

“Nesta situação, os oprimidos não vêem ao “homem novo” como aquele que deve nascer da contradição, uma vez resolvida, quando a opressão dê lugar à libertação. Para eles, o homem novo são eles mesmos, convertidos em opressores. Sua visão é individualista, por causa de sua identificação com o opressor: não têm consciência de si mesmos enquanto pessoas, enquanto membros de uma classe oprimida. Não é com o objetivo de serem homens livres que desejam a reforma agrária, e sim para adquirir uma terra e deste modo converterem-se em proprietários ou, mais precisamente, em patrões de outros trabalhadores.”

Desse modo não é para ser livre que Django luta, e sim em nome da vingança e do reencontro com sua amada esposa Broomhilda. Frente a isso Django se mostra alguém alienado, preso as superficialidades, atrelado as aparências, e ao constante desejo de parecer livre.

“Um de seus desejos alienados é o de aparecer, não o de ser. Seu pensamento e a maneira como expressa o mundo são geralmente um reflexo do pensamento e da expressão da sociedade dirigente. ” (FREIRE, 1979, p.45)

Conclusões finais

As reflexões acerca das relações de poder vigentes em nossa sociedade são um tema recorrente, e explicitado inclusive nas produções audiovisuais, como no filme Django Livre. No filme em questão, o poder e as lutas raciais não são o tema geral, porém tem certo destaque, numa época retratada onde a escravatura era o motriz econômico da sociedade, e o negro era subjugado. A hipótese inicial da presente pesquisa baseada em uma primeira e superficial leitura, tendia a considerar a trajetória do protagonista, Django, como uma trajetória de emancipação, e alcance da liberdade, como sugere o próprio título do filme. Porém ao analisarmos o discurso de Django, notamos na verdade toda uma contradição, e afinal, o supostamente livre, é na verdade prisioneiro da hegemonia.

O protagonista se mostra raso, com uma personalidade unilateral, e motivações para sua suposta liberdade individualistas e motivadas sobretudo na vingança. Django no fim de tudo não toma consciência de si, nem da possibilidade de empoderamento, ele ainda é um escravo, escravo do racismo, escravo das possibilidades que para ele nunca existirão enquanto houver o trabalho escravo, fadado a viver foragido, a ter que matar para sobreviver, pois no mundo de Django não há emancipação. Portanto, o filme Django Livre, não contribui com o empoderamento do negro fora da ficção, antes confirma práticas errôneas, que apenas corroboram uma sociedade racista, reflexão esta a respeito do filme já feita por alguns cineastas negros como Spike Lee. E além da trajetória do protagonista se mostrar raso, motivada por razões torpes, o filme de uma forma geral se mostra racista, levando assuntos sérios como o grupo supremacista branco Klu Klux Klan ou os órgãos genitais do homem negro como apenas uma piada. O filme que usa a expressão injuriosa “nigger” mais de cem vezes, se mostra apenas preocupada com o entretenimento, o visual pelo visual, se esquecendo de toda a história de um povo que até hoje herda os martírios da escravidão. Django que se acha livre, é prisioneiro, e é acima de tudo, mais um agente da cultura dominante racista, e ao contrário de contribuir apenas atrapalha a militância do negro e o processo de conscientização e empoderamento, tão necessário nos nossos dias.

Referências

BAQUERO, R. V. A. Empoderamento: instrumento de emancipação social? – Uma discussão conceitual. Revista debates, v. 6, n. 1, p. 173, 2012.

DJANGO Livre. Direção: Quentin Tarantino. Produção: Stacey Sher; Reginald Hudlin; Pilar Savone. Los Angeles: Sony Pictures, 2012.

FOUCAULT, M. Ditos e escritos II: Arqueologia das ciências e história dos sistemas de pensamento. Organização e seleção dos textos de Manuel Barros da Motta. Tradução de Elisa Monteiro. 2ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2005.

__________________. Arqueologia do saber. Tradução de Luiz Felipe Beata Neves. 7ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2008.

FREIRE, P. Conscientização: teoria e prática da libertação: uma introdução ao pensamento de Paulo Freire. Tradução de Kátia de Mello e Silva. Revisão técnica de Benedito Eliseu Leite Cintra. São Paulo: Cortez & Moraes, 1979.

GASPAR, N. R. Análise do discurso: a leitura no foco do audiovisual. Polifonia, v. 13, n. 13, 2007. SHOR, I;

FREIRE, P. Medo e ousadia: o cotidiano do professor. Tradução de Adriana Lopez. Revisão técnica de Lólio Lourenço de Oliveira. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986.

WILLIAMS, R. Cultura e materialismo. São Paulo: Editora Unesp, 2011.

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